Cultura & Arte

Adolph Menzel, o fundador da nação alemã através da Arte

"Coroação do Rei Guilherme I", 1861 (Fonte: Wikipedia)
“Coroação do Rei Guilherme I”, 1861 (Fonte: Wikipedia)

Königsberg, 1861: ano da coroação de Guilherme I, o novo rei da Prússia e futuro imperador alemão. No palácio da atual Kaliningrado, um pintor é responsável por retratar este importante episódio da história da Prússia. Seu nome: Adolph Menzel (1815-1905). Segundo consta, o baixinho Menzel teve que ficar apoiado numa cadeira e lutar contra o desequilíbrio para perpetuar para o mundo o instante glorioso da família dos Hohenzollern. A obra ficou pronta depois de quatro anos e, meticuloso como era, Menzel fez questão de pintar o rosto de cada um dos convidados de Guilherme I. Ao todo, eram 140, sendo que apenas 9 deles foram pintados a partir de estudos feitos por fotografias tiradas naquele dia. O rei Guilherme I não ficou totalmente satisfeito: exigiu que sua barba branca fosse substituída por uma cor que lhe desse mais jovialidade. Sem contar que sua altura foi adulterada. Claro, ele quis parecer mais alto do que era.

Apesar da insatisfação do rei, foi esta a pintura que acabou por representar uma ruptura na biografia de Adolph Menzel. Entre 1868 e 1873 foi continuamente celebrado, do Salon de Paris até a Exposição Universal de Viena, como um dos grandes pintores da Prússia e de sua época. Porém já nos anos 40 e 50 do século XIX, Menzel já mostrava bastante desenvoltura artística. Em 1842, uma coleção de 400 gravuras suas contavam a história do maior rei da Prússia, Frederico II, o Grande (1712-1786). Entre 1850 e 1854, três pinturas ganham destaque: “Mesa Redonda em Sanssouci”  (1850), „Concerto para Flauta em Sanssouci” (1852) e “Frederico o Grande em Viagem” (1854). Este legado pictórico foi suficiente para que o poeta Theodor Fontane considerasse Adolph Menzel o “pintor da era fredericiana por excelência”. Há quem vá afirmar que Menzel conseguiu retratar pictoricamente o mito prussiano.

“Tributo das cidades da Silésia em Breslau no ano de 1741” (Fonte: Wikipedia)
“Tributo das cidades da Silésia em Breslau no ano de 1741” (Fonte: Wikipedia)

Apesar de tais afirmações e levando-se em conta que estamos num século de grandes movimentos populares em toda a Prússia e da consolidação de uma classe burguesa, fica patente constatar que Menzel não se prezava a fazer apologia total a essa glória prussiana. O próprio pintor se via como um mero plebeu. Interessante é comprovar sua resistência na instância da arte mesma. Um dos casos mais interessantes é da obra chamada “Tributo das cidades da Silésia em Breslau no ano de 1741”. Um ano antes, os soldados prussianos haviam conquistado a Silésia e, consequentemente Breslau. Menzel nasceu em Breslau e fez questão de representar nesta obra alguns personagens que não se interessam em celebrar Frederico II. Isso pode ser observado no fato de que os representados olham para o espectador da pintura, portanto não dando qualquer atenção para a presença de Frederico II, que está em segundo plano no quadro.

Um pintor “rebelde”?

"Mesa Redonda em Sanssouci" (Fonte: Wikipedia)
“Mesa Redonda em Sanssouci” (Fonte: Wikipedia)

Em “Mesa Redonda…”, apesar de Frederico II ser o grande nome do Salão de Mármore do Palácio Sanssouci, Menzel parece fazer questão de deixá-lo em segundo plano e eliminar qualquer traço de hierarquia entre os senhores sentados. O filósofo Voltaire é que domina o discurso nesta cena. O mais interessante, ao meu ver, é o que está por trás do “Concerto para Flauta…”: olhando com mais cuidado, é possível observar que a mulher mais próxima a Frederico, que toca flauta, é uma condessa velha e feiosa. À direita, o homem que olha para o chão é o professor de flauta de Frederico II. À esquerda, o presidente da Academia das Artes parece se interessar mais pelo teto do palácio do que pela performance de seu rei. Mesmo Carl Philipp Emanuel Bach, filho do grande Bach, que está tocando cravo, parece estar enfadado. São pinturas que não representam, de maneira alguma, um glorioso Frederico II, mas sim quase um homem qualquer. O próprio Menzel chegou a afirmar que sua inspiração para este quadro não foi o rei prussiano, mas sim o belo lustre que embeleza a sala de música do Palácio Sanssouci. Mais irônico, impossível.

Esta forma de analisar a obra de Menzel confere a suas pinturas não somente o poder de relativizar a figura glorificada de Frederico II, mas também revela que é o tempo de relativizar o próprio poder das monarquias nacionais. Para os partidários de um Frederico II liberal na era do Absolutismo (Frederico II reinou entre 1740 e 1786), talvez seu liberalismo tenha sido a grande inspiração para Menzel. O fato é que depois da coroação de Guilherme I, o pintor de Breslau deixou de ser o homem a contar as histórias da corte através de seus quadros. Ele será substituído por Anton von Werner, homem que pintará em 1871 a nomeação de Guilherme I como imperador alemão.

"Concerto para Flauta" (Fonte: Wikipedia)
“Concerto para Flauta” (Fonte: Wikipedia)

A partir daí Menzel passa a se dedicar a representar a burguesia prussiana sem, no entanto, jamais ter sido esquecido (até a hora de sua morte) como o detentor dos arautos de glória da Prússia na instância das artes pictóricas. Sem dúvida, um homem interessantíssimo para a História da Arte alemã em seu período realista.

Aos que se interessam em aprender a história da Prússia e da Alemanha através de pinturas, eu recomendo uma visita à bela Antiga Galeria Nacional, na Ilha dos Museus. O museu fica aberto de terça à domingo, das 10h00 às 18h00. Sugiro que se compre um bilhete único para visitar todos os cinco museus do complexo no valor de 18 euros. Aos que preferem apenas a visita a um dos cinco museus, o valor é de 12 euros.

Boa visita!


Exibir mapa ampliado

Comentários
Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial
error

Gostou do Destino: Berlim? Que tal nos seguir?